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A ditadura da moda

Dicas de moda vintage e retrô, para quem quer voltar aos bons tempos

Quem está ligado no mundo fashion sabe que a moda é uma coisa cíclica. As tendências vão e voltam, surfando nas ondas lançadas por designers, estilistas, formadores de opinião e influenciadores digitais. Atualmente, os “trend setters” estão apostando tudo na volta do “look anos 60”, com campanhas pelo revival da minissaia, do vestido tubinho, da calça Saint Tropez, da calça boca-de-sino, das estampas psicodélicas e da ditadura militar.

Para você que não quer ficar por fora dessa nova tendência vintage, damos aqui algumas dicas de modelitos que vão fazer suas amigas e seus amigos morrerem de inveja. Se eles não morrerem de inveja, você fala comigo. Eu conheço um cara que é amigo de um ex-coronel que pode dar um jeito nisso.

Um dos modelos mais elegantes é um conjunto baseado no look farda camuflada, em vários tons de verde musgo e bege. Mas o toque de classe são as charmosas manchas de sangue espalhadas pela estamparia. Você não vai  mais ficar se torturando, naquela dúvida sobre o que vestir. Com este modelito você vai arrasar!

E atenção para os acessórios. Você não imagina o que se pode fazer com um simples cinto. Um cinto vintage, tipo anos 60, evidentemente pode ser usado na cintura, num estilo mais tradicional. Mas pode também ser usado de uma forma mais criativa, em volta do pescoço e amarrado numa grade de prisão.

Um outro acessório que sempre impressiona é o pau de arara. É meio  complicado de se usar e você vai perder um pouco de mobilidade mas, para quem está acostumada a usar um Louboutin com salto de 19 cm não é nada de mais. A tortura é só um pouquinho pior.

 

* Publicado na Folha de S. Paulo em maio de 2018.

 

 

 

A primeira aula de tiro a gente nunca esquece

 

O doutor Darth Vader dos Santos e o pastor Herodes da Silveira estavam exultantes naquela manhã. Eles iriam levar os netinhos para a primeira aula de tiro. Vários colegas do PMPC (Partido Macho pra Caralho) tinham recomendado a escola Espingardinha Feliz como um estabelecimento altamente capacitado para a educação de jovens atiradores.

Diego, o netinho do doutor Darth Vader, tinha cinco anos, e Camila, a neta do Pastor Herodes, tinha quatro.

As crianças estavam na idade ideal para começar a atirar. Aprender tiro é como aprender línguas: quanto mais cedo, melhor. Mas os colegas de partido ainda não tinham dado nenhuma dica de cursos de inglês, francês ou espanhol.

Quando chegaram na escola, foram recebidos pelo diretor, o doutor Temístocles Fonseca, um senhor idoso, militar expulso das Forças Armadas, que na juventude tinha prestado serviços de consultoria para o Esquadrão da Morte, no Rio de Janeiro. O Doutor Temístocles foi logo tranquilizando os vovôs, dizendo que a escola não usava o método Paulo Freire. Ali ele adotava o método Brilhante Ustra.

Com muita paciência, o professor Temístocles explicou tudo sobre as partes do revólver e disse que, se eles apertassem aquele negocinho que se chamava gatilho, as balinhas sairiam por aquele cano. Naquele momento, os dois vovôs estavam muito empolgados, lendo nos seus celulares algumas mensagens nas redes sociais esculachando aquele general cadeirante. O professor Temístocles também se interessou e foi dar uma olhada no seu celular. Aí só deu tempo de ouvir o Dieguinho falar com a Camila: “Olha que legal! É por aqui que saem as balinhas!”. Quando o professor tirou os olhos do celular para ver o que acontecia, as duas crianças já estavam com os canos dos revólveres na boca. Depois dos disparos, pedaços dos pequenos crânios e miolos se espatifaram nas paredes do estande de tiro.

Antes de se despedir dos vovôs, o diretor avisou que ia adicionar na conta uma quantia relativa à despesa com a faxina do local.
Quando saíram da escola, o pastor Herodes da Silveira coçou a cabeça e comentou com o colega: “É como dizia o Jair: isso aqui só tem jeito com uma guerra civil… Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra morrem inocentes”.

 

*Texto publicado na Folha de S.Paulo em 2019.