Categoria Comportamento

O tatuador tuiteiro

Muitos amigos me ligaram, preocupados, querendo saber o que aconteceu com o tatuador tuiteiro que, por engano, tatuou uma mensagem no braço de um cliente, o lutador de MMA Max Marombão. Vejam aí na figura como ficou o trabalho.

É claro que o lutador de MMA e enfiou a porrada no tatuador, e depois exigiu providências imediatas para remediar a cagada. O tatuador disse que a maneira mais rápida e eficaz para se livrar da tatuagem seria a amputação do braço. Max Marombão não gostou da ideia e deu mais umas enchulapadas no tatuador. Em seguida, os dois passaram a cogitar sobre as opções de desenhos para cobrir aquele texto. O tatuador sugeriu então o desenho de um enorme coração envolvido por uma faixa onde se lê a palavra “Mother”. O lutador pensou um pouco e disse que não seria boa ideia, porque ele não se dá bem com a mãe. “A gente briga muito. E ela sempre perde”, disse ele.

Depois pensaram em caveiras, águias, punhais e o diabo, mas ele já tinha todos esses temas tatuados em outras partes do corpo, inclusive o diabo. O tatuador teve então uma ideia ousada: propôs tatuar o rosto do escritor Lima Barreto, homenageado da Flip em 2017. O lutador até achou a ideia interessante, mas preferiu não fazer, para não se sentir na obrigação de, no ano que vem, cobrir o Lima Barreto com o retrato do homenageado da Flip de 2018. O tempo estava passando e eles, já sem muita paciência,  resolveram optar para um clássico: a infalível imagem de Jesus Cristo. Essa é uma unanimidade, não tem erro.

E assim foi feito. O problema é que, dias depois, quando Max Marombão estava passeando pela primeira vez com sua nova tatuagem, um cara chegou perto e falou: “Que maneiro! Gostei dessa homenagem ao Aldir Blanc!”

Nem é preciso dizer que, depois dessa, o tatuador distraído levou mais umas bifas.

(Publicado na Folha de S. Paulo em julho de 2017)

A fórmula do Dr. Pilsenstein

4 horas da manhã. O silêncio da madrugada é quebrado pelo som das borbulhas nas ampulhetas e balões volumétricos no laboratório do Dr. Victor Pilsenstein. O brilhante químico estava empolgadíssimo porque, depois de vários anos de pesquisas, tinha finalmente descoberto a fórmula. O Dr. Pilsenstein estava com o mesmo entusiasmo que sentiu no século passado, quando conseguiu trazer de novo à vida o carnaval de rua, morto e enterrado desde os tempos do Bafo da Onça. Ele se lembrava agora, com nostalgia, da noite em que invadiu o cemitério para exumar o cadáver, com o auxílio de seu fiel assistente, o corcunda Waldemar. A fantástica ressureição do carnaval de rua tinha sido, até agora, o seu grande triunfo. Mas a descoberta dessa nova fórmula poderia levar seu nome ao panteão do Prêmio Nobel de Química.  

Nos últimos anos, o Dr. Pilsenstein vinha se dedicando também a um serviço de consultoria técnica a vários produtores de cerveja artesanal. E foi a partir daí que ele concebeu esse novo e ambicioso projeto, que envolvia banheiros químicos e cerveja, dois elementos fundamentais no carnaval de rua.

Naquela madrugada, o Dr. Pilsenstein tinha conseguido descobrir uma fórmula economicamente viável de desxixização da urina depositada nos banheiros químicos e sua posterior cervejização. Graças à essa descoberta, o material seria instantaneamente transformado em cerveja, e poderia ser reutilizado ali mesmo. Depois da passar por um aparelho de filtragem e purificação, o líquido se transformaria num saboroso chope dourado, passaria por uma serpentina e seria servido, no capricho e estupidamente gelado, aos foliões e mijões sedentos.

Com essa combinação de banheiro químico e choperia autossustentável, o Dr. Pilsenstein tinha encontrado a solução para um grave problema do carnaval de rua. Os foliões não mais mijariam nas ruas, fazendo questão de utilizar esses inovadores banheiros químicos, para poder aproveitar o carnaval até a última gota. Agora, era só esperar pelo Nobel.